Perda doída e difícil de processar a de Marina Kohler Harkot, socióloga e cicloativista de 28 anos, atropelada enquanto pedalava pela Avenida Paulo VI (zona Oeste de São Paulo), na madrugada de 8 de novembro, por um motorista de SUV, que fugiu do local sem prestar socorro.
Não a conhecia pessoalmente, mas pude acompanhar um pouco de sua atuação como estudiosa sobre mobilidade urbana.
Em setembro de 2016, publiquei, no blog, referência a um estudo então recém-divulgado (Mobilidade por Bicicleta e os Desafios das Mulheres de São Paulo), conduzido por Marina e colegas do Grupo de Trabalho de Gênero da Ciclocidade. Os dados colhidos na pesquisa pioneira viriam, mais tarde, a servir de base para sua tese de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Menina aplicada e comprometida com seus ideais, Marina Harkot vai fazer muita falta. Ainda mais nesses tempos de carrocentrismo revigorado sob o lema “Acelera, São Paulo”.
Abaixo, uma das muitas homenagens feitas à ativista:
As pessoas passam pela nossa vida, mudam nossa trajetória e nunca dizemos 'eu te amo'. Esse momento trágico nos reuniu para isso. O vídeo completo tá lá na outra rede. Que a cidade seja mais gentil, para q mais Marinas continuem a sorrir.#marinapresentepic.twitter.com/NpQClLqpYd
“Pertence à ordem do amor para um filho, em primeiro lugar, que ele diga sim a seus pais como eles são”
(Bert Hellinger)
Se eu já era cuidadosa em relação aos meus backups, tornei-me três vezes mais depois de passar por uma (ainda não digerida) perda de arquivos fotográficos. E eis que, no movimento de encontrar (e, aos poucos, reparar) imagens do Periplus, meu primeiro blog – até recentemente, hospedadas em um de meus domínios -, deparei com um post em que eu relatava um reencontro com colegas jornalistas, ocorrido em São Paulo, logo após eu me mudar para lá. Fez-se, então, a deixa perfeita para eu retomar o assunto aqui.
Comentando uma afirmação equivocada sobre carreira no Exército, feita por uma das pessoas presentes àquela reunião, escrevi em certa altura: “Em um país onde o alistamento militar é obrigatório, não seria duplamente imperativo que nosso repórter estivesse a par de questões como essa?” Então.Imaginem ter de explicar para um jornalista, com idade perto dos 30, o que significa, para essa carreira em especial, o seu pai ter cursado AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras). Logo eu! Difícil de acreditar, mas eu precisei fornecer tais explicações para um cara que chegou a frequentar festa na casa da minha família, em Campo Grande (MS), justo na época em que meu pai, então coronel, comandava um quartel na capital. O mesmo indivíduo que, algum tempo depois do tal equívoco, eu soube estar frilando para um jornal de São Paulo.
Meu pai em 3 tempos: A partir do alto, no sentido horário: Em 1958, com 12 para 13 anos, aluno do Colégio Militar de Belo Horizonte; em 1967, participando, como cadete, de uma prova de salto na AMAN; e em 1995, aos 50 anos, condecorado, como coronel, na mesma cerimônia em que, coincidentemente, meu ex-professor de História da Imprensa (FAC/UnB), o jornalista Carlos Chagas (na 2.ª fileira), também era homenageado.
Pouco converso sobre o assunto, mas não teria como ignorá-lo. Afinal, trata-se de minha filiação. Meu pai chegou ao topo da carreira, tendo cumprido, com honrarias, todo o percurso a partir do Colégio Militar: entrou na AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras (o equivalente, em termos civis, a uma universidade), fez EsAO, ECEME, comandou quartéis, como major e, depois, como coronel… Ou o coleguinha, lá atrás, era pouco informado sobre o meio (do que duvido muito) ou agia de má-fé, opção que reputo como a mais provável. Bem, mas essa é uma outra história. Não faz sentido ocupar o espaço do meu blog com considerações sobre a motivação (e os complexos) de quem eu mal conheço.
Percursos dos pais, escolhas dos filhos
Lembro da primeira vez em que me senti constrangida por ser filha de militar. Eu era adolescente e cursava a primeira série do Segundo Grau numa escola particular de linha progressista, em Botafogo. A situação não poderia ser mais banal: minha carteira de identidade caiu no chão da sala de aula. O garoto que sentava-se ao meu lado viu e pegou-a, às gargalhadas e com um comentário mais ou menos nestes termos: ‘Olha só, gente, ela é filha de major!‘ — o RG emitido pelo então Ministério do Exército trazia impressa a patente do pai do portador. Embora perdoado, o bullying continuou reverberando muito tempo depois. Mas foi ali, naquela escola da zona sul carioca, em meio a aulas de Sociologia da Educação e práticas artísticas, com professores por quem eu nutria enorme fascínio, que eu comecei a ter a real dimensão da triste herança deixada pelo regime militar. Daí porque, alguns anos depois, tenha ingressado na universidade esperando que esse viesse a ser um assunto particularmente incômodo. Chegava a antever os dedos em riste. Mas não foi o que ocorreu. Pelo menos não em minhas duas passagens pela UnB. Talvez tenha pesado o fato de que éramos ali, em um grande número, alunos vindos de outras cidades, vivendo em Brasília sobretudo em função das profissões de nossos pais. E por que mesmo interessaria saber a profissão dos progenitores dos seus colegas de turma?
Mas se eu, a partir da adolescência, passei a me sentir desconfortável com o fato de ser filha de militar, de lá para cá, tenho conhecido pessoas que relacionam-se com a sua filiação de maneira bem mais serena – gente, inclusive, com quem compartilho semelhantes ideais progressistas.
Nesse grupo, ouso incluir o fotógrafo Luis Humberto, de quem fui aluna na UnB. Conheci-o na época em que eu estava pleiteando mudança de curso, de Antropologia para Comunicação. Não demorou a que eu descobrisse que ele também era filho de militar. Antes e depois de meu ingresso na FAC, chegamos a conversar, muito abertamente, sobre as implicações de ter pai “milico” e de como essa nossa origem se refletia em nossas escolhas – para o bem e para o mal. Eu concluía ali que, para lá das diferenças geracionais (meu pai nasceu em 1945) e das trajetórias dentro das Forças Armadas, nossos pais tinham muito em comum. Em termos de formação intelectual e cultural, mas, sobretudo, no que dizia respeito a aceitarem as opções que fazíamos, por mais heterodoxas que pudessem se revelar. Entendia, então, que éramos ambos filhos de homens em nada parecidos com a imagem (ainda hoje) bastante difundida do militar inculto e reacionário.
Péri em apresentação do show Samba Passarinho: Sesc Pompeia, 2005
Desses dias em que acordo nostálgica – e não são poucos, como bem o denuncia minha timeline. Hoje, não sei qual foi a deixa, quis saber: onde andará o Péri? Fui atrás e reencontrei-o aqui. Conheci o músico baiano na época em que fizemos assessoria de imprensa para projeto que o também músico Carlos Careqa levou ao CCBB de São Paulo. “Novo de Novo – O Brasil de Pixinguinha” reuniu no palco paulistano, em 2003, entre outros, feras como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Belchior, Vitor Ramil e Marcelo Vianna, neto de Pixinguinha.
A TV Cultura gravou os espetáculos e exibiu-os no programa Jazz & Cia. E aqui, a segunda parte, traz show e entrevista com o saudoso Itamar Assumpção.
PACO DE LUCÍA está inscrito no rol de minhas grandes paixões juvenis. E sempre me remeterá à época de ter vinte e poucos anos e ainda estar tão entusiasmada pela Antropologia. Ou à descabida pretensão de emulá-lo em meu humilde Di Giorgio 28, entre uma e outra aula de violão. Paco de Lucía parte jovem demais.
“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível
criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que
encontro nas montanhas do meu país, na mulher preferida, nas nuvens do
céu, nas ondas do mar. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo
de Einstein”. (Oscar Niemeyer: * 15/12/1907 – + 05/12/2012)”
|| Na foto, o Museu Nacional Honestino Guimarães, em Brasília, projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer e inaugurado em dezembro de 2006.
Em seu 447º verão, meus parabéns a essa que há muito figura na lista de meus afetos mais ambíguos. Com votos de uma sempre melhor convivência, parabéns à cidade maravilha mutante, o Rio de cidades misturadas, berço do samba e das lindas canções, a capital do sangue quente do Brasil. PARABÉNS, Rio de Janeiro !